erotismo curto e grosso
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NO COTIDIANO DAS GRANDES E PEQUENAS CIDADES, A SEXUALIDADE PULSA E O EROTISMO PERCORRE O UNIVERSO: CURTO, GROSSO E SEM RODEIOS!


Terça-feira, Abril 10, 2007


Vermelho fogo
Que tristeza.Tento abaixar, não abaixo. Tento virar, não viro. Tento dobrar, não dobro. A bendita aula na academia. Fiz o máximo. Saí de lá suada até à alma. Cheguei em casa radiante com minha performance. E aí veio a fisgada. Travei. Travei total. Senti a falta de poder sobre o meu corpo. Era ele quem ditava as regras. Parece que me dizia em alto e bom som "você vai ficar quieta". E foi bom. Consegui pensar no meu corpo de forma intensa. Em toda sua capacidade de atração, na sua necessidade de afeto, na flexibilidade de fazer amor. Ah... fazer amor. De que jeito? Sim. De que jeito? Era um desafio e tanto. Um desafio que foi vencido à noite, na imobilidade do meu ser e na super-atividade do meu homem. Ele falou igual falara meu corpo " você vai ficar quieta". E a criatividade veio como uma luz divina, aprovando sua utilização mesmo para fins únicos de prazer carnal. E que prazer! Hoje estou ótima. Destravei, flexionei, dobrei, corri, subi, pulei. Já consigo até pintar as unhas dos pés. A cor? Vermelho fogo.


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Sábado, Junho 12, 2004


Só olhei na janela
Acordei cedo. Oito horas, talvez. Dia dos Namorados... Fiz o café, esquentei meu pãozinho com queijo e voltei para o quarto. Desanimada, com sono, peguei a sacola com a lingerie comprada no dia anterior. Era linda, realmente. Muito cara, mas linda. Tomei uma ducha e coloquei as peças. A cor era deslumbrante. As rendas, macias, lembravam os decotes das nobres da antiguidade. Olhei daqui, dali e fui chegando mais perto do espelho. E...mais perto da janela. Olhei para fora, lá do alto. Um rapaz, de malha azul e calça jeans, de costas para a minha janela andava na calçada de um lado para o outro. Parecia perturbado. Logo notei que a perturbação ficava do outro lado da rua, num banquinho da Stupendo. Era uma moça. De longe parecia bonita. Bem magra, cabelos pretos, presos num coque bem feito. De vez em quando trocavam olhares. E eu fui ficando alí, na janela, curiosa para saber onde ia dar tudo aquilo. O homem não parava.Na verdade ali era seu local de trabalho. Uma loja de carros. A calçada era pequena para o vai-e-vem. Ele olhava. Ela retribuia. Mas fazia de conta que esperava alguém. Do lado de cá da janela, euzinha, sozinha, de lingerie novinha, comecei a pensar coisas. E assim, de repente, cortando minhas fantasias, a garota sai do banquinho, atravessa a rua e pede emprestado sorrindo o celular do rapaz. Ela liga uma, duas, três vezes. Da loja, alguém chama o rapaz. Ele acena desesperado para esperar. Ela pede para ele ligar. Ele liga. Tem mais sorte. Passa o celular para a garota que fala por uns dois minutos, agradece e fica alí parada. Da casa ao lado surge uma senhora. Ela abre o portão e a garota entra. O rapaz parece tomado por um raio. Sem mais, seu objeto de desejo some pelo corredor vizinho. Ele vira o rosto, jovem e vigoroso, para o meu prédio e olha para o céu, como que pedindo ajuda. Dos céus não veio nada mas ele viu de longe o vinho das rendas cobrindo discretamente meus seios fartos. Nosso olhar se cruzou. Ficamos parados, perplexos, extasiados e excitados. Ele ainda excitado com a garota e eu com ele, agora mais ainda. Logo ele notou que eu estava ali há muito tempo, acompanhando sua caçada. Trocamos sorrisos de cumplicidade e gestos que revelaram os números do meu telefone. O endereço ele sabia... À noite nos deliciamos com o vinho da minha lingerie.
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Segunda-feira, Maio 31, 2004


Fotos só em pb
Rute nasceu fotógrafa. Ainda pequena, com sete anos, já saía com o pai pelas ruas fotografando tudo. Seu vício era fotografar em preto e branco. O pai até ficava bravo, pois a cada dia era mais complicado achar filme em pb. Mas Rute não abria mão. E assim foi pela vida. Saiu do Brasil, com 18 anos. Foi estudar na Europa. Viajou por vários países. E começou a perceber que sua tara pelo preto e branco começava a fazer parte do seu erotismo. Não podia ver um homem negro que ficava em chamas. Muitas vezes parou africanos nas ruas da Alemanha e pediu poses e fez closes. Eles adoravam. Ela mais ainda. Já estava com 30 anos. Sua vida sexual era medíocre. Raramente fazia sexo. E quando fazia, o homem era sempre um amigo chegado, um colega fotógrafo e sempre branco. Além do prazer de fotografar, Rute ganhava a vida fazendo fotos para grandes indústrias. Registrava o maquinário, os processos produtivos, os funcionários... Ah, os funcionários. Foi numa tarde morna de outuno, em Ludwigshafen, dentro de uma indústria química que Rute conheceu Fran. Na verdade seu nome era Francisco. Trabalhava na gerência de uma planta de poliestireno. A cor da sua pele era negra como uma pantera. Ombros largos, lábios carnudos e sedentos. Olhar de quem quer avançar e comer a presa. Rute, ao vê-lo, sentiu as pernas tremerem, e a voz saiu da sua boca como um murmúrio. Fran era brasileiro e a comunicação foi rápida. O interesse de um pelo outro ficou estabelecido no exato momento em que apertaram as mãos. Quatro horas depois, na sala de um pequeno apartamento, Rute admirava a renda da cortina da janela. Acompanhava com os olhos cada curvinha do bordado. E Fran redesenhava em seu corpo as teias e fissuras da renda da cortina. Foram horas de puro e intenso amor. Tudo em pb.
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Quarta-feira, Abril 28, 2004


Na mesma hora, no mesmo lugar.
Era sempre tudo igual. Minha amiga se encontrava com ele nas horas marcadas e exatas. Nada saia do script. Ele tinha compromissos sérios. Aquela rotina nada criativa até certo ponto a escravizava. Mas minha amiga amava demais aquele homem para exigir o impossível. Sem ela perceber, entretanto, foi por conta dessa rotina que seu vizinho a percebeu. Ele a observava fazia tempo. Sabia dos seus horários. Conhecia a agenda dos encontros e mais do que tudo, sabia da agenda da solidão. A primeira vez foi só um toque no telefone. Ninguém do outro lado. No dia seguinte a mesma coisa. E assim, durante uma semana, o telefone tocava exatamente 10 minutos depois da despedida do seu amor. Não era coincidência. Ela logo percebeu que era vigiada. Ao mesmo tempo em que ficou com receio, sentiu uma curiosidade típica das mulheres. E não deu outra. O amor deu tchauzinho, 10 minutos depois o telefone tocou e ela pediu gentilmente que a pessoa do outro lado se identificasse, pois já estava tudo muito claro. "Ou você mora aqui ou no prédio vizinho", disse certeira minha amigona. A voz do outro lado, áspera, mas muito sensual, confirmou: "Moro no prédio ao lado do seu, descobri seu telefone e estava tentando criar coragem para falar com você." Ela ouviu tudo. Ele explicou a coincidência de ter percebido seus horários. Via, pelo vitrô da sala, ela se despedindo do seu amor, fechando a porta e... Ele assistia a tudo. Também sozinho. Falou que era separado, vivia ali há 10 anos e que estava completamente só e ainda perguntou se ela não queria conhecê-lo: "é só você ir até a sala, estou na janela em frente à sua". Minha amiga foi, sorriu, e voltou para o telefone. Hoje, passados dois anos dessa conversa, ela ainda continua escrava de horários e continua amando seu amor como nunca. Mas a agenda da solidão foi abolida definitivamente.
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Quinta-feira, Abril 22, 2004


Amo muito tudo isso
Confesso que estava na fila do Mac bastante distraida, pensando na campanha "Amo muito tudo isso". Meu cérebro, naquele momento, listava o que eu amava muito na vida. De repente, um homem simpático, sorriso tímido, ar jovial e cabelo espetadinho perguntou se eu estava na fila. Percebi meu corpo realmente deslocado, permitindo a dúvida daquele jovem senhor sensual. Sem rodeios, respondi que sim. No peito, o crachá da Fiesp, revelava o nome do homem educado: Eduardo. Ele percebeu meu olhar e perguntou:"e o seu?". Sorri e disse que era Regina e completei que estava distraída pensando naquele slogan. Seu olhar fixou o banner à nossa frente e ele confessou que também gostava, que achava a campanha muito criativa. E sem timidez se aproximou bastante de mim. Fiz de conta que não percebi e fiquei ali, na fila. Ele perguntou se já tinha escolhido meu pedido e eu disse que sim. "Eu também", falou olhando fixamente para mim. Quis saber se eu achava que havia alguma insinuação no slogan. "Insinuação?", perguntei sem entender. Ele confirmou e explicou aproximando-se muito do meu corpo até roçar seu braço no meu seio esquerdo. Olhou bem dentro dos meus olhos e falou: "você entendeu, agora?". Afastei-me e respondi que havia entendido muito bem. Porém, uma excitação alucinada, ardente, tomou conta do meu corpo e ele percebeu. "Pois é - falou olhando para o meu decote sem nenhuma inibição - eu amo muito tudo isso!". Ao mesmo tempo tirou um cartão do bolso e pediu, por favor, para eu ligar pra ele. Minha vez na fila chegou, fiz meu pedido, me despedi daquele homem enigmático e fui sentar do lado de fora do salão.O céu estava azul e meu rosto vermelho. O cartão ficou intocável na carteira até o final da tarde. Daí o peguei, li e senti o mesmo roçar no meu seio e a mesma sensação de prazer. Ali, sozinha, num escritório do espigão da Paulista, liguei para Eduardo.
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Segunda-feira, Fevereiro 23, 2004


Você sabe o que é caviar? E chat?
Renata havia se separado há seis meses. Estava inconsolável. Andava triste pela casa. A filha única acompanhava aquela depressão sem nada dizer. Até que um dia sugeriu à mãe entrar numa sala de bate-papo. "Você vai fazer amizade com gente da tua idade, também sozinha, vai ser legal", garantiu a jovem que foi logo ensinando os primeiros passos no caminho da internet. Renata brigou um pouco no começo, mas se adaptou com a rapidez de quem procura alívio imediato para dor de cabeça. Seu coração batia mais forte, afinal, a dor de verdade era no peito, na alma. Era um mixto de excitação, medo e expectativa. Ela entrou como Silvia, pois a filha a ensinou a ter cuidado com o mundo virtual. Vieram as primeiras perguntas, os primeiros cliques no teclado. A sala estava com umas dez pessoas. E ali, sem ser vista por ninguém, percebeu alguém especial. Seu apelido era Charles. Renata começou a sentir uma sensação diferente, um tesão virtual, um calor localizado bem no meio do ser. Quando, de repente, ao alguém falou em "chat". Rápida, para impressionar o seu príncipe, Renata ou, melhor, Silvia começou a sugerir nome de comidinhas para o "chat". Os mais antenados jogaram na tela rostinhos gargalhando. E ela, ingênua, achou que ganhara pontos. Quando a brincadeira tomou um rumo mais perigoso, o príncipe resolver salvar sua princesa. Chamou-a para uma sala particular e perguntou: "Meu bem, você sabe o que caviar? E chat?" Depois da explicação, ficaram na sala mais um mundo de tempo. Tudo ficou esclarecido. O poder da palavra somado à sedução apagaram a fogueira que insistia resistir. Marcaram para o dia seguinte um encontro real. Comeram caviar. Muito caviar. E foram felizes para sempre...
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Terça-feira, Fevereiro 17, 2004


SÓ CAIXA POSTAL
Cel - seu nome verdadeiro era Celina - estava impaciente. O marido viajou, ficou de ligar e até aquela hora nada. Eram três da manhã. Celular dele só caixa postal. Ela desconfiava de algo. Para falar a verdade, Cel vivia um casamento fracassado. Estava com 45 anos e começava a ter a noção exata de que havia perdido muito tempo com aquele teatro, com o faz-de-conta de um casal feliz. Pensativa foi para o computador. Talvez ele tivesse passado um e-mail. Nem sinal. Entrou no provedor, na sala de bate-papo. Quem sabe não passaria o tempo se divertindo. Entrou como Sara, 30 anos, de São Paulo. Ficou lá quieta, no escuro da tela. Três mulheres entraram e sairam. Erraram de porta. Em seguida veio Gabriel. "Oi, tudo bem, de onde tc?" Ela respondeu o que tinha direito: era de sp, ruiva, cabelos curtos, olhos verdes, 1,55 de altura, 57 quilos, médica veterinária, casada, três filhos homens. E vc? Ele disse que também era de sampa, solteiro, 1,98m, era muito magro, cabelos compridos até o ombro, lisos, aloirados, tocava "batera" numa banda de rock. E a sua idade? "Vinte anos, estou fazendo faculdade de comunicação na Usp". E foi logo adiantando: "Eu adoro mulheres mais velhas". Foram duas horas de conversa, muito tesão e um encontro marcado. Desse o que desse. Na hora veria a reação dele, afinal tinha 45 anos e não 30. Data marcada, marido viajando, Cel encontrou Gabriel. Ele chegou de moto. Ao tirar o capacete, os cabelos escorreram pelos ombros. Ela sentiu um quase orgasmo, os olhos dele eram azuis e sua voz grossa. "Você não tem 30 anos, certo?, mas é muito bonita, muito gostosa!" falou o rapaz passando a mão nos cabelos curtos de Cel. Ele entrou no carro. Foram para um motel. Nus, deitaram na cama sem sentir a diferença de idade, de altura, de cultura, de estado civil. Ele olhou para ela e jogou os cabelos para frente. Como um pincel, passou as cerdas por todo o corpo daquela mulher cheia de vontade. Da cabeça até os pés. Depois voltou, olhou fixamente para Cel, parou no meio do caminho e abriu suas pernas. O céu de Cel ficou estrelado, a lua cheia de prazer espalhou raios de luz pelo quarto enquanto um gemido atravessava o universo. O marido ligava para seu celular, sem parar! Só dava caixa postal.
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Sábado, Fevereiro 07, 2004


O PRIMEIRO A GENTE NUNCA ESQUECE
Duas vezes por semana eu visito o Lar da Amizade. É um trabalho voluntário. São 15 senhoras, todas com mais de 70 anos. A característica básica é que todas elas lembram detalhes do passado. O presente, segundo especialistas, não existe, pois elas não têm mais espaço no disco rígido do cérebro. E por falar em rígido... Lydia, 72 anos, Mal de Alzheimer há cinco, um dia começou a rir sem parar. Perguntei o que era. Ela contou!!! Quando tinha uns 13 anos, sua mãe pediu para ela comprar óleo na venda do "seo" Mário, a umas seis quadras de casa. Os troquinhos iam na mão, enroladinhos. Antes de sair ajeitou os cabelos, arrumou o vestido e lá foi. Toda charmosa. Chegando perto da venda avistou um homem maravilhoso que vinha na sua direção. Segundo Lydia ele era lindíssimo e estava finamente vestido, terno e gravata cinza, camisa branca. A pele era bem morena, queimada do sol. Só um detalhe a incomodou. Ele mexia "lá" , sem parar. Ao se aproximar da menina, o bonitão não teve dúvidas. Tirou a fera pra fora. Lydia embasbacada olhou, sem piscar. Era grande, muito grande, roliço, avermelhado. Mas não era feio, ela garante! Eu perguntei se não havia ficado traumatizada. Ela riu gostoso e respondeu: "Claro que não! Casei três vezes e tenho cinco filhos. O Carlos vem aqui hoje. Sabe, minha filha, o primeiro pênis a gente nunca esquece!" E riu safadamente. A campainha da clínica tocou. A enfermeira abriu o portão. Era Carlos. Um moreno queimado do sol, alto, olhos verdes. Vestia terno e gravata cinza. A camisa era branca.
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Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004


PERNAS PRA QUE TE QUERO
Eu vi quando meu tio olhou para minhas pernas. Ele sorriu, olhar maroto e comentou com meu outro tio: "Você viu? Nossa sobrinha tem umas pernas que pelo amor de Deus!". O segundo tio virou-se para o lado e ficou olhando, sem dizer nada. Eu tinha apenas 12 anos e ainda não sabia que duas simples pernas eram tão poderosas. O tempo todo fiz de conta que não havia percebido os comentários e olhares. Mas, estava adorando. Comecei a entender, ali, naquele pedacinho de areia, na praia do Gonzaga, o verdadeiro jogo da sedução. Eu fazia de conta e eles também. O irmão da minha mãe, o mais sem-vergonha dos dois, lá pelas tantas nem disfarçava mais. Olhava tesudo para minhas coxas. Chegou a esbarrar a mão nelas quando veio pegar uma toalha pra se enxugar. E arriscou um convite: "Não quer ir para o mar com o titio?". Sorri e balancei a cabeça em sinal negativo. Meu sorriso o deixou enlouquecido. Ele era meu tio, mas era lindo! Desde bem pequena eu já arriscava o olho pra cima dele. Mas, ele nunca percebeu. Afinal, minhas pernas ainda não eram atraentes. Relembrando disso resolvi me vingar daquele tio tão gostosinho, tão sacaninha que só me percebeu aos 12 anos. Virei para o mar e deixei meu traseiro bem de frente para o seu rosto. Mais uma vez ele chamou a atenção do outro tio. "Puta que pariu...olha só agora, Zé! Essa menina tá um mulherão!". A brincadeira do faz de conta só acabou quando minha mãe chegou. Ela foi logo mandando eu tomar jeito. E deu um grito com o irmão. Alguns minutos depois, eu e meu tio estávamos trocando olhares e sorrisos, numa total cumplicidade familiar. À noite, já respeitosamente vestidos, ele veio se sentar ao meu lado na sala de jantar. Por baixo da mesa, roçava sua perna na minha. E contava histórias para todos rirem. De tempos em tempos, ele me abraçava, como sobrinha, mas sorrateiramente sussurrava um "gostosa" no meu ouvido. Lá pelas tantas, a família inteira se recolheu aos seus aposentos. Ele, solteirão, deitou no sofá da sala. Eu fui para o quarto, junto com meu irmão e duas primas. De madrugada senti sede, fui beber água na cozinha. Ao passar pelo sofá, um forte puxão me carregou pra cima do meu tio querido. Seu desejo era apenas tomar conta da sobrinha perdida na escuridão. E como tomou! Acho que ele conhecia muito bem a história de Jerry Lee Lewis...
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Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004


MADEIRA MACIÇA
No sonho, a mesa era bem grande. Madeira maciça, pés retos presos com calços gigantescos. Foram necessários cinco homens para colocá-la no lugar. Eles gritavam na hora de montá-la, afinal, era pesada demais. Cada um segurava num canto. O tampo, de uma só tora da velha árvore sacrificada, devia pesar mais de 200 quilos. Era só um sonho. Mas a mesa brilhava. Os raios de sol, que vinham do jardim, transpassavam os vidros e se apoiavam e dançavam naquele gigantesco tampo. Ele aceitava o toque sutil dos raios solares e fazia surgir dali mesmo faíscas iluminadas para todos os lados. Os olhos não agüentavam tanta luz. Mas, a mesa era só um sonho. Ao acordar, a dona da casa desceu a escada e olhou para o vazio onde poderia estar sua mesa gigantesca. Um arrepio desconhecido percorreu seu corpo. Sua esperança era sonhar outra vez. Sorrateira, a noite chegou depois de um por de sol rubro que encheu a sala dos mais variados tons de calor. O sono chegou logo depois e ela subiu a escada. Mais uma vez olhou para o vazio, mas viu a mesa, brilhando, sorrateira, como que a convidando para tomar um café. Ela estava cansada, muito cansada, muito sozinha. Deitou, dormiu profundamente e sonhou. A mesa estava lá mais uma vez: maciça, forte, brilhante, cheia de vida. Pronta para receber o peso de dois corpos insaciáveis. E por que não, perguntou a si mesma. Era só um sonho. Ela podia deitar na mesa e se entregar completamente às suas fantasias. Foi o que fez.
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Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004


VENDAVAL NO TATUAPÉ
O corpete é preto. Renda fina, francesa. Comprado no domingo, numa loja chique do shopping, especialmente para alguém especial. Os bojos são rasos, mas sustentam os seios de forma a erguê-los e aproximá-los. Desenham com vigor um colo quente e convidativo. Atrás, os delicados fechos - que devem ser mais de 50 - abotoam o corpete desde o meio das costas até o final da coluna. E é nesse final que surge uma tirinha de seda bem fininha, também preta. Ela dá a volta e vem cobrir com transparência e suavidade um sexo pulsante, ávido de prazer. O corpete e a quase-calcinha vestem uma mulher deitada de bruços num quarto de motel, no Tatuapé. Foi nesse quarto que ela amou pela primeira vez o homem que acaba de entrar. Ele se aproxima, roça os lábios e a língua na sua nuca. Ela desperta. Sorri. Olha para ele e o coração dispara. Beija-o alucinadamente e pede: "Faça comigo o que você quiser!". E a natureza, lá fora, como que cumprindo suas ordens, arrasta o telhado do metrô para a avenida com ventos de 80 km por hora. No quarto, a natureza também cumpria ordens.
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Sexta-feira, Janeiro 30, 2004


QUÍMICA NO TRÂNSITO
Mila não era mulher de levar desaforo para casa. O carro da frente quase esbarrara no seu. Ela buzinou, gritou. Ele parou e saiu. Mila ficou extasiada. À sua frente um símbolo de beleza e sexualidade. Seus olhos eram verdes. Os cabelos, esbarrando nos ombros, eram cor de mel. A camisa cinza combinava com a calça preta impecavelmente vincada. E o perfume...foi só ele chegar perto da janela do carro. Sério, ele perguntou o que ela queria, por que estava tão brava? Afinal, ela estava errada. Mila sorriu e pediu para falar juntinho ao seu ouvido. Ele se curvou. Ela encostou a boca. Reclamou da sua carência e do tempo que não transava. Com certeza esse era o motivo de tanta rudeza. Ele olhou fixamente para seus olhos que também o fitavam avidamente. Sem nada dizer, abriu a porta do carro de Mila e a carregou para o seu. Foram embora. O carro de Mila continua até hoje largado no canto da praça.
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Quinta-feira, Janeiro 29, 2004


VONTADE NO ESCRITÓRIO
Há algum tempo ela havia percebido: ele tinha alguém mais do que sua mulher. Estava diferente. Feliz. Parecia até mais jovem, apesar dos 50 anos. Ela era sua secretária há pouco mais de um ano e tinha só 22. Conhecia todas as manias dele. Sabia quando ele falava com clientes, com os irmãos, com a mãe, com a mulher e com aquela figura misteriosa que só ligava no celular dele. 'As vezes ele a atendia bem 'a vontade, achando que ninguém estava percebendo nada. Mas a secretária sabia que era ela. Ele ficava excitado. O volume aparecia sorrateiro. O sorriso se transformava. Os olhos brilhavam. E o volume crescia. Ele achava que não dava para ver. Mas o espaço entre a mesa do computador e a mesa principal era suficiente para deixar aquela visão 'a mostra. E ela se excitava. E muito. Imaginava de tudo, de todas as formas, em todas as horas. Começou a gostar dele. Afinal, a visão poderia ser compartilhada. Jogou verde, azul e amarelo. Ele se fazia de ingênuo. E evitava a garota. Num final de tarde, quase noite, o celular dele tocou. Ele estava na sala da diretora e esquecera o aparelho na mesa. Sua mão não resistiu. Correu, pegou o aparelho e apertou a tecla send. Ela pensou: "agora vou ouvir a voz da outra". Do outro lado, entretanto, uma voz masculina, ordenou: "Venha até aqui!". Ela entrou, excitada, assustada e surpresa. O chefe fechou a porta. Na poltrona, a diretora nua já esperava a nova companhia.
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